Quarta-feira (7) foi o dia em que o bitcoin devolveu tudo o que tinha ganhado em outubro. A maior criptomoeda do mundo perdeu o patamar dos US$ 83 mil com queda de cerca de 4% em 24 horas, apagou a alta acumulada no mês e ainda viu a ata do Federal Reserve confirmar que a maioria dos dirigentes considera provável mais uma alta de juros até o fim de 2026. No mercado de derivativos, o estrago passou de US$ 658 milhões em 24 horas.

Mas quem compra em real olhou para a tela e viu outra coisa. Na mesma semana, o dólar caiu abaixo de R$ 5 pela primeira vez desde maio, e o câmbio passou a trabalhar a favor de quem compra em reais: o mesmo bitcoin de US$ 83.100 custava R$ 432.776,49 com a PTAX de venda de 1º de outubro e passou a R$ 414.959,85 com a PTAX de 7 de outubro — R$ 17.816,64 a menos, ou 4,12%, só pela valorização do real.

Vamos por partes, porque são duas histórias acontecendo ao mesmo tempo: a americana, que empurrou o preço para baixo, e a brasileira, que mudou o preço que você efetivamente paga.

O que a ata do Fed divulgada em 7 de outubro diz

As atas da reunião de 15 e 16 de setembro foram publicadas na quarta-feira, às 15h no horário de Brasília, e o trecho que interessa ao mercado é curto e direto: “a maioria dos participantes avaliou que um novo aumento do intervalo meta da taxa dos fed funds provavelmente seria apropriado até o fim do ano”. O documento está no site do Federal Reserve.

A reunião coberta pela ata foi a que elevou a taxa básica americana em 0,25 ponto percentual, para a faixa de 3,75% a 4,00% — a primeira alta desde 2023, aprovada por 12 votos a 0. O intervalo é o que o Fed chama de 3-3/4 a 4 por cento, e a decisão foi acompanhada de uma frase que a autoridade repetiu no comunicado: o Comitê “entregará estabilidade de preços”.

O que os dirigentes escreveram sobre a economia ajuda a entender o tom:

  • A inflação medida pelo PCE foi estimada em 3,8% em 12 meses em agosto, com o núcleo — que exclui energia e parte dos alimentos — em 3,4%;
  • O desemprego ficou em 4,1% em julho e agosto;
  • Vários participantes avaliaram que a taxa de juros atual não é restritiva, ou é apenas levemente restritiva;
  • Os riscos para a inflação foram classificados como inclinados para cima, e alguns dirigentes afirmaram que essa assimetria aumentou nos últimos meses;
  • Vários participantes registraram surpresa com a escala e o ritmo dos investimentos em infraestrutura de inteligência artificial, que aparecem no texto tanto como pressão de custos quanto como motor de produtividade.

Sobre os próximos passos, o documento faz a ressalva de praxe — cada reunião é decidida com “mente aberta”, a partir dos dados —, mas o recado é claro o suficiente para o mercado ter reagido na hora. O BeInCrypto Brasil registrou que, nos cinco minutos seguintes à publicação, o bitcoin subiu de cerca de US$ 83.159 para US$ 83.306 (+0,18%), o S&P 500 ficou praticamente estável, perto de 7.801 (-0,02%), e o ouro seguiu em torno de US$ 4.110 a onça. Entre os três mercados, o cripto foi o único que se mexeu de verdade.

A leitura de contexto importa. A expectativa de mais uma alta já havia aparecido em 16 de setembro, quando as projeções do próprio Fed mostraram que a maioria dos dirigentes previa ao menos um novo ajuste de 0,25 ponto até dezembro. E o relatório de emprego de setembro, com apenas 29 mil vagas criadas contra as 90 mil esperadas e desemprego em 4,2%, fez o mercado reduzir a aposta em uma alta já em outubro para cerca de 20% — antes do payroll, essa aposta passava de 70%. Bancos como o J.P. Morgan trabalham com o próximo aumento em dezembro.

Ou seja: a ata não mudou a direção, mudou o calendário. E, num mercado que vive de antecipação, isso já é o suficiente para mexer preço.

O gatilho que veio antes da ata: o juro longo americano

A queda do bitcoin começou na noite de terça-feira (6), quando o preço perdeu o suporte de US$ 85,2 mil, e se aprofundou antes mesmo de a ata sair. Por volta das 12h20 de quarta, em Brasília, a cripto era negociada perto de US$ 82,9 mil, como reportaram o InfoMoney e o BP Money.

O motivo estava na renda fixa americana, não no mercado cripto. O rendimento do Treasury de 10 anos operava perto de 5,33%, e chegou a 5,365%, o maior nível em 22 anos. O papel de 30 anos renovou o maior patamar desde 2002, como mostrou o InfoMoney. O BlockTrends lembrou um detalhe que dá a medida do que aconteceu: a última vez que os juros longos americanos estiveram nesse patamar, o mercado de criptomoedas nem existia.

A lógica é simples e vale ser dita sem rodeios: quando o título mais seguro do mundo paga mais de 5% ao ano, carregar risco fica caro. O investidor institucional que já trata bitcoin como parte de um portfólio recalculou a conta, e o movimento não ficou restrito ao cripto — ações de tecnologia e small caps sofreram junto.

Do lado da demanda, os ETFs de bitcoin à vista negociados nos Estados Unidos registraram saída líquida de US$ 89,9 milhões na segunda-feira (5), segundo dados da SoSoValue. O mercado à vista, na leitura de quem opera, ainda não tem comprador suficiente para segurar o preço sozinho.

US$ 700 milhões liquidados, mais de 90% em apostas de alta

O número que melhor resume a quarta-feira é o das liquidações. Em 24 horas, o volume liquidado no mercado cripto chegou perto de US$ 700 milhões, e mais de 90% desse total estava em posições compradas — gente que apostava na alta e foi retirada da operação à força.

Os dados da CoinGlass compilados pelo BlockTrends detalham o estrago: mais de 100 mil traders liquidados, US$ 658 milhões no total, sendo US$ 218 milhões em posições compradas de ethereum e US$ 148 milhões em bitcoin. A maior liquidação individual aconteceu no par ETH/USDC da Binance, no valor de US$ 26,64 milhões. O ether caiu 5,8% no período — mais que o próprio bitcoin.

Há um detalhe técnico nessa queda que merece atenção, porque foge do roteiro habitual. Em correções desse tipo, o normal é o número de contratos em aberto no mercado futuro encolher, à medida que posições alavancadas são destruídas. Desta vez não foi o que aconteceu: as posições voltaram, em poucas horas, para um nível acima do que existia antes da queda. “A alavancagem não foi reajustada, ela trocou de mão”, resumiu Marco Aurélio de Camargos, CIO da Vault Capital, ao InfoMoney.

Na leitura gráfica do mesmo gestor, US$ 82,5 mil é o divisor de águas. Abaixo dele, o caminho técnico aponta para US$ 79 mil. Acima, com fluxo comprador aparecendo, a recompra de quem entrou vendido no fundo pode servir de combustível — e, na avaliação dele, levar o bitcoin de volta acima dos US$ 87 mil. É um cenário, não uma previsão.

Para dar escala: o recorde histórico do bitcoin segue em cerca de US$ 126 mil, registrado em outubro de 2025. O preço atual está aproximadamente um terço abaixo disso.

Enquanto isso, no Brasil, o dólar perdeu os R$ 5

Aqui a história vira de cabeça para baixo — e começa antes, no resultado da eleição.

Na segunda-feira (5), primeiro pregão depois do primeiro turno, o dólar à vista caiu 4,12% e fechou a R$ 5,0022, com a PTAX em R$ 4,9859, o menor nível desde 21 de maio, segundo dados do Banco Central. O Ibovespa disparou 7,70%, para 206.911,89 pontos, recorde de fechamento e maior alta diária desde março de 2020.

Na terça (6), o movimento continuou: o dólar comercial recuou para R$ 4,968 (-0,66%) e o Ibovespa subiu 7,85%, aos 207.190 pontos, novo recorde histórico.

Na quarta (7), houve alguma devolução. O fechamento do mercado financeiro mostrou o Ibovespa em 204.302,33 pontos (-0,74%), com máxima de 206.877 e mínima de 204.176, e volume de R$ 40 bilhões. No acumulado do ano, a bolsa brasileira sobe 26,8%; no mês, 9,64%. O dólar comercial fechou com venda a R$ 5,0112 (+0,72%), a PTAX de venda ficou em R$ 4,9935 (+0,48%) e o dólar futuro de outubro foi cotado a R$ 5,0435 (+0,74%).

Traduzindo: mesmo com o dólar tendo subido um pouco na quarta, ele passou a semana inteira abaixo de R$ 5, um nível que não se via desde maio. E é esse detalhe que muda a conta de quem compra cripto com Pix.

O mesmo bitcoin, R$ 17,8 mil mais barato só por causa do câmbio

Aqui está o ponto que quase nenhuma análise gringa vai mostrar para você.

A conta usa só números oficiais. A PTAX de venda — a taxa de referência do Banco Central para o dólar — estava em R$ 5,2079 em 1º de outubro e caiu para R$ 4,9935 em 7 de outubro, uma variação de -4,12%. Aplique as duas ao mesmo bitcoin de US$ 83.100, o preço de referência da quarta-feira: no começo do mês ele custava R$ 432.776,49; na quarta, R$ 414.959,85. São R$ 17.816,64 a menos, sem que o preço internacional tivesse caído um centavo. Foi só câmbio.

E o preço internacional também recuou, em outro intervalo: o bitcoin fechou a segunda-feira (5) a US$ 85.825 e operava a US$ 83.100 na quarta (7), recuo de 3,18% em dólar. Para quem compra em reais, os dois movimentos apontam para o mesmo lado — e é por isso que a queda aparece maior na tela em reais do que na tela em dólar.

Nível do bitcoinEm reais (PTAX de venda de 7/10, R$ 4,9935)
US$ 87.000 (resistência citada)R$ 434.434,50
US$ 83.100 (referência de 7/10)R$ 414.959,85
US$ 82.500 (divisor técnico)R$ 411.963,75
US$ 79.000 (alvo em caso de perda)R$ 394.486,50

Dois números práticos para fechar a conta: com R$ 1.000, ao preço de US$ 83.100 e PTAX de R$ 4,9935, dá para comprar aproximadamente 240.987 satoshis — um bitcoin é dividido em 100 milhões de satoshis. E o contrato futuro de bitcoin em reais da B3, que tem 0,01 bitcoin de tamanho, equivale hoje a cerca de R$ 4.149,60 por contrato. O câmbio usado em todas as contas é a PTAX de venda de 7 de outubro, do Banco Central, para que qualquer pessoa possa conferir a conta.

A agenda das próximas três semanas

São cinco datas, e cada uma mexe com um pedaço diferente da sua carteira:

  • 14 de outubro — inflação ao consumidor de setembro nos Estados Unidos (CPI). É o último dado relevante antes da próxima decisão do Fed;
  • 25 de outubro — segundo turno da eleição presidencial brasileira, com Flávio Bolsonaro (47,03% no primeiro turno, 56.103.033 votos) e Lula (45,16%, 53.870.724 votos) na disputa. É o evento que explica boa parte da queda do dólar e da alta da bolsa;
  • 27 e 28 de outubro — reunião do FOMC. A ata mostrou que a porta está aberta, mas o mercado, depois do payroll fraco, aposta majoritariamente em uma alta só em dezembro;
  • 30 de outubro — prazo para as exchanges que já operavam no Brasil protocolarem o pedido de autorização como PSAV (prestadora de serviços de ativos virtuais) no Banco Central, conforme a IN BCB 704. Quem protocolar dentro do prazo continua operando durante a análise; quem não protocolar precisa encerrar os serviços;
  • 6 de novembro — passa a valer a proibição de instituições autorizadas no país realizarem ou viabilizarem operações com prestadoras de serviços de ativos virtuais não autorizadas no Brasil. A data foi deslocada de 30 de outubro para 6 de novembro pela Resolução BCB 589, de 23 de setembro, publicada no Diário Oficial em 25 de setembro.

Essa última merece uma linha a mais, porque reorganiza o mercado. Pela Resolução BCB 589, que alterou a Resolução BCB 520/2025, além de transferir a data da vedação, passam a valer, a partir de 1º de janeiro de 2027, os deveres de prova de reservas verificável e de reporte ao Banco Central sobre saldos contábeis mantidos em favor de clientes, ativos virtuais sob custódia por cliente e por ativo e ativos destinados a staking, quando o serviço for oferecido. O escritório GSGA resume bem o efeito prático: a norma estende a supervisão do Banco Central a toda a cadeia, alcançando também as contrapartes estrangeiras com que as instituições autorizadas se relacionam.

O detalhe operacional que trava o setor é o volume de papel. A FinanceFeeds mostrou que o pedido de autorização deixou de ser formulário e passou a exigir um relatório de asseguração razoável, no padrão NBC TO 3000, emitido por empresa de auditoria registrada na CVM, testando na prática a eficácia dos controles de prevenção à lavagem de dinheiro, ao financiamento do terrorismo e a sanções. Segundo estimativa da CertiK compilada pela mesma reportagem, cerca de 120 prestadoras estão sujeitas ao regime de transição, com exigência de capital e patrimônio líquido que varia de R$ 10,8 milhões a R$ 37,2 milhões conforme as atividades — custódia, intermediação e corretagem têm componentes de risco diferentes, e uma plataforma que combina vários serviços tende ao teto da faixa.

Para dimensionar o mercado que está sendo organizado: o Brasil recebeu cerca de US$ 318,8 bilhões em valor on-chain no ano encerrado em junho de 2025, quase um terço do total da América Latina, e cerca de 80% do volume declarado à Receita Federal circula em stablecoins, com o USDT respondendo por 88,7% desse total. Não é nicho: é infraestrutura de pagamento rodando dentro de uma regra nova.

O Mercado Bitcoin já declarou que vai protocolar, dentro do prazo, tanto o pedido de autorização como PSAV quanto o de operação no mercado de câmbio, necessário para intermediar stablecoins. Com o protocolo feito a tempo, a regra de transição permite que a plataforma siga oferecendo essas operações enquanto o pedido é analisado, explica a própria exchange.

O que isso significa para quem compra com Pix

Junte as duas histórias e o retrato fica mais claro.

A queda de quarta-feira foi um evento de derivativos: quem foi liquidado estava alavancado, e alavancagem de cripto para o varejo brasileiro deixou de existir nas corretoras que atendem residentes no país ao longo deste ano. O investidor que compra à vista, com o dinheiro que já é seu, não tem preço de liquidação — ninguém é retirado da posição por uma oscilação de madrugada, porque não existe dívida para cobrar. É a diferença estrutural entre as duas formas de se expor ao mesmo ativo.

A segunda história é de câmbio. Com o dólar abaixo de R$ 5, todo ativo precificado em dólar fica mais barato em reais. Foi o que aconteceu com o bitcoin nesta semana: a PTAX de venda caiu 4,12% entre 1º e 7 de outubro e, só com isso, o mesmo bitcoin de US$ 83.100 ficou R$ 17.816,64 mais barato em reais. Se você compra recorrentemente com Pix, o câmbio é uma variável tão relevante quanto o gráfico do bitcoin.

E há a terceira ponta, a tributária, que continua igual — e vale registrar porque muita gente ainda repete informação antiga. Seguem valendo a isenção de Imposto de Renda para vendas mensais de até R$ 35 mil e as alíquotas de 15% a 22,5% sobre o ganho nas alienações acima desse limite, conforme as orientações da Receita Federal. O que mudou de verdade foi o rastreamento: a DeCripto, criada pela Instrução Normativa RFB 2.291/2025 e alinhada ao padrão CARF da OCDE, passou a exigir declaração mensal, com a primeira entrega em 31 de agosto de 2026 referente às operações de julho.

O caminho para quem está começando segue o mais direto possível: abrir conta em uma corretora que aceita Pix — Binance, Mercado Bitcoin, Bybit Brasil — e fazer a compra à vista, sem margem, com o ativo sob sua custódia. Um depósito em reais cai em segundos, e a conversão em bitcoin, ether ou USDT pode ser feita na mesma hora.

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