Sexta-feira, 2 de outubro, 9h35 da manhã em São Paulo: a Bity — dona do app Bitybank e do Bitypreço — anunciou que encerra os serviços de cripto para terceiros no Brasil e fechou acordo com o Mercado Bitcoin para receber sua base de clientes. São cerca de 850 mil usuários e mais de R$ 1 bilhão em ativos sob custódia, segundo o Valor Econômico. É a terceira plataforma em poucas semanas a mandar clientes para o MB, e o recado que chega ao investidor brasileiro é direto: a régua regulatória de 30 de outubro já está cortando o mercado — e quem tem saldo em plataforma que não se mexeu precisa tomar uma decisão antes de dezembro.
O que a Bity anunciou, exatamente
A Bity opera no país desde 2018 e foi o primeiro marketplace de criptomoedas da América Latina. Com o acordo, a empresa muda o foco: mantém apenas a vertical de negociação com recursos próprios e encerra BityPreço, BityBank e BityPayments.
“Nós temos outras verticais que não dependem de licença para funcionar. Mas todos os outros produtos que ofereciam serviços para terceiros, envolvendo criptomoedas, serão encerrados”, disse ao Valor o fundador e CEO Valdiney Pimenta. A empresa confirmou que não vai pedir autorização como prestadora de serviços de ativos virtuais (PSAV) ao Banco Central: “Não pedir a autorização como PSAV é uma decisão sobre as prioridades da Bity, e não sobre o mercado.”
No comunicado enviado aos clientes, a Bity cita as Resoluções BCB 519, 520 e 521 — que desde fevereiro exigem autorização prévia do BC de quem intermedia, custodia ou faz corretagem de ativos virtuais para terceiros — e afirma que, após avaliar as alternativas ao longo de 2026, decidiu concentrar capital e estrutura em outras frentes. A saída não começou agora: em 14 de setembro a empresa já havia encerrado o cartão de criptomoedas, com clientes direcionados à Kast.
Os três prazos que valem dinheiro
Quem tem saldo na Bity precisa olhar o calendário — e não são meses de folga:
- 25 de novembro: última data para vender os ativos na plataforma, transferi-los para uma carteira externa ou migrar a conta para o Mercado Bitcoin.
- 27 de novembro: os criptoativos que ainda estiverem na plataforma são convertidos em reais a preço de mercado e o saldo fica disponível na conta.
- 29 de novembro: prazo para a transferência dos saldos em criptomoedas dentro da migração para o MB e para usar as condições de boas-vindas — período ampliado de taxa zero na compra e venda, renda fixa digital, staking e atendimento dedicado para carteiras maiores, segundo a parceria anunciada.
O ponto que passa batido é o 27 de novembro. Conversão automática é venda: você deixa de ter Bitcoin e passa a ter reais, na cotação daquele dia, sem escolher o momento. Quem tem prejuízo acumulado no ativo passa a ter o prejuízo realizado — e quem tem lucro precisa olhar o imposto, que segue a regra de ganho de capital em criptoativos. Já a transferência de cripto entre contas e carteiras da mesma pessoa não é evento de venda.
Esse roteiro é idêntico ao que aconteceu com a NovaDAX em 30 de setembro: saques em cripto encerrados e o que sobrou convertido em reais. É o padrão da nova fase do mercado brasileiro.
Você não é obrigado a migrar — são quatro saídas
A migração para o Mercado Bitcoin não é obrigatória. Roberto Dagnoni, chairman e CEO do MB, resumiu a promessa da casa: “Nosso compromisso é que os clientes da Bity tenham uma transição simples e segura.” A negociação entre as duas empresas durou cerca de quatro meses. O que o cliente pode fazer até 25 de novembro:
- Migrar para o Mercado Bitcoin, aceitando as condições de boas-vindas e mantendo a posição sem evento de venda.
- Transferir os criptoativos para outra corretora que esteja no processo de autorização do BC, e o saldo em reais via Pix. O mercado oferece alternativas além da indicada, e a comparação de caminhos já circula entre os próprios players.
- Levar para uma carteira de autocustódia, assumindo você mesmo a guarda das chaves. Aqui valem as regras de sempre: carteira quente x carteira fria e o cuidado absoluto com a frase de recuperação — quem perde a seed perde o saldo, e ninguém devolve.
- Vender e sacar em reais, usando Pix para levar o dinheiro para o banco, no passo a passo de como vender cripto e sacar em BRL.
Quem quer manter a custódia em plataforma regulada tem hoje uma porta adicional: o Nubank Cripto passou a permitir saques on-chain de BTC, ETH, SOL e USDC para carteiras externas, segundo a própria instituição — ou seja, dá para sair do banco digital para uma carteira própria quando for conveniente. Antes de escolher destino, vale comparar taxas, limites e condições do Mercado Bitcoin.
Por que isso está acontecendo agora: a régua de 30 de outubro
O pano de fundo é uma data. As regras para PSAVs estão em vigor desde 2 de fevereiro de 2026 e as empresas que já operavam naquela data têm até 30 de outubro para protocolar o pedido de autorização no Banco Central, permanecendo ativas durante a análise. Depois do prazo, ainda é possível pedir autorização — mas o novo entrante só começa a operar depois do aval, num processo que pode levar de dois a três anos, conforme apurou o Valor. Bancos, corretoras de valores e instituições já autorizadas seguem outro rito, apenas de comunicação.
E o número que explica a onda de saídas: até 18 de setembro, apenas cinco empresas haviam protocolado o pedido — quatro em análise e uma indeferida por falhas de documentação e capital mínimo insuficiente. O capital mínimo exigido fica entre R$ 10,8 milhões e R$ 37,2 milhões, em faixas definidas pela atividade da empresa. A primeira instituição que o BC listou publicamente como “em processo de autorização” foi a Onda Finance, no Comunicado nº 45.986, em 21 de setembro — uma empresa de stablecoins e remessas internacionais.
O calendário do setor, portanto, é este: 30 de outubro para o pedido de autorização; 6 de novembro para a vedação, trazida pela Resolução BCB 589, de instituições autorizadas operarem com prestadoras não autorizadas no país; e 1º de janeiro de 2027 para os reportes de saldos de clientes, custódia, provas de reservas e staking, além da retenção cautelar de até 24 horas em envios para o exterior e para carteiras autocustodiadas, segundo a nota oficial do BC.
Como checar se a sua corretora vai ficar
Antes de escolher onde guardar o saldo, faça cinco verificações. Leva menos de meia hora e evita repetir a situação da Bity com outro nome:
- Procure o nome da plataforma nos comunicados do BC. A página de ativos virtuais do Banco Central reúne as normas e os comunicados do regime de autorização.
- Pergunte ao suporte, por escrito, se a empresa protocolou o pedido de PSAV e em que data. A resposta por e-mail ou chat vale como registro.
- Confirme a segregação patrimonial: os seus criptoativos não podem responder por dívidas da empresa. Isso é exigência da Resolução 520.
- Teste um saque pequeno. Retirar uma fração dos ativos para outra corretora ou para a sua carteira hoje mostra, na prática, se o processo funciona — e não no dia em que você precisar.
- Não deixe saldo parado sem resposta. Se a plataforma não confirmar o pedido até 30 de outubro, o prazo do dinheiro passa a ser o dela, não o seu.
O que mudou no radar do Coaf em outubro
Para quem vai movimentar valores maiores nessa transição, há uma mudança que entrou em vigor em 1º de outubro: a Resolução BCB 588 passou a exigir comunicação específica ao Coaf das transferências de ativos virtuais de ou para carteiras autocustodiadas em valor igual ou superior a US$ 10 mil. O dever é da corretora, não do cliente; a norma não proíbe a operação e não fixa teto para ela — muda o registro, não o direito de guardar os próprios ativos. O detalhamento está em autocustódia e Coaf: o que muda.
E há uma novidade recente e favorável: a Resolução BCB 591, publicada no fim de setembro, ampliou o prazo de comunicação. A obrigação segue valendo para as operações feitas desde 1º de outubro, mas as transferências de outubro a dezembro de 2026 só precisam ser comunicadas ao Coaf no primeiro dia útil de janeiro de 2027 — o mesmo vale para câmbio com moeda estrangeira em espécie a partir de US$ 10 mil, como detalhou o Let’s Money com base na norma publicada pelo Banco Central.
O mercado em cima disso
O movimento acontece num dia de alívio. Na sexta-feira (2), o bitcoin subia 3,4% em 24 horas, a US$ 86.124, e era negociado no Brasil a R$ 450.111, com o relatório de emprego americano mostrando apenas 29 mil vagas em setembro, contra 84 mil esperadas, e desemprego em 4,2%. Os ETFs à vista de bitcoin voltaram a captar: US$ 102,7 milhões em 1º de outubro. Solana subia 4,1% (US$ 121,79), XRP avançava 3,1% (US$ 1,53), o ether ganhava 2% (US$ 2.730,14) e a BNB, 1,6% (US$ 778,83).
Do outro lado do balcão, a pressão foi grande: as liquidações de posições vendidas passaram de US$ 240 milhões nas últimas 24 horas, com o preço rompendo uma parede de liquidez de ordens de venda que o levou perto de US$ 87,8 mil. É o tipo de dia em que decidir às pressas sai caro — e é exatamente por isso que os prazos da Bity merecem ser tratados com calma e antecedência, não no último dia útil de novembro.
Como o brasileiro se posiciona
Consolidação de corretoras não é o fim do mercado: é a troca de um mercado informal por um mercado com regra, capital mínimo, segregação de patrimônio e contraparte fiscalizada. Quem sai ganhando é o investidor que escolhe onde deixar o dinheiro com critério — e que não confunde a data de vencimento de uma plataforma com a sua própria tese.
Para quem quer começar ou continuar comprando com o cadastro mais simples e depósito por Pix, a porta de entrada mais usada pelos brasileiros segue sendo a Binance, que aceita reais, tem taxa competitiva e liquidez profunda em BTC, ETH, SOL e stablecoins.
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⚠️ Este conteúdo é apenas informativo e não constitui recomendação de investimento. Investir em criptomoedas envolve riscos. Faça sua própria pesquisa (DYOR).
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