A sexta-feira (2) tinha tudo para ser o dia em que o Bitcoin romperia os US$ 87 mil com folga. O payroll de setembro veio com apenas 29 mil vagas criadas nos Estados Unidos, contra um consenso que ia de 84 mil a 90 mil — o tipo de dado fraco que derruba a aposta em juros altos e empurra o capital para o risco. O Bitcoin subiu. Por volta das 13h30 UTC, tocou US$ 87.085,81, o maior preço em cerca de dez dias. E devolveu tudo em uma única noite.
Na manhã de sábado (3), às 06h00 UTC, o BTC negociava a US$ 84.635,62, queda de 1,6% em 24 horas, dentro de uma faixa de 24 horas que teve mínima de US$ 83.898,29 e máxima de US$ 87.085,81, segundo dados do CoinGecko. A capitalização de mercado ficou em US$ 1,701 trilhão e o volume à vista em 24 horas, em US$ 38,5 bilhões. No meio do caminho, US$ 433,57 milhões em posições foram encerradas à força — e US$ 321,77 milhões delas eram apostas de alta, ou 74,2% do total. Foram 100.263 traders liquidados, de acordo com a CoinGlass.
É o mesmo roteiro de sempre, com um detalhe que muda o tamanho da conta: o dado veio bom, o preço subiu, a alavancagem entrou atrasada e quem chegou por último pagou o jantar de quem estava posicionado antes.
O payroll que matou a aposta de alta
Vamos aos números, sem filtro. O relatório do BLS mostrou 29 mil vagas criadas em setembro, com a taxa de desemprego subindo de 4,1% para 4,2% — 7,1 milhões de pessoas desempregadas — e o salário médio por hora praticamente parado em US$ 37,81, com alta mensal de 0,13% (a expectativa era de 0,3%) e ganho de 3,02% em 12 meses.
O que o mercado digeriu pior foram as revisões. Julho, que antes aparecia com abertura de 21 mil vagas, virou fechamento de 10 mil postos. Agosto caiu de 162 mil para 133 mil. Somados, os dois meses ficaram 60 mil vagas abaixo do que havia sido informado antes. Para efeito de comparação, a média mensal de criação de vagas nos doze meses anteriores tinha sido de 45 mil — ou seja, setembro veio abaixo até dessa média já modesta.
O efeito imediato foi no preço do dinheiro. O Fed subiu os juros em 16 de setembro para a faixa de 3,75% a 4,00%, a primeira alta desde julho de 2023, e a reunião seguinte do FOMC está marcada para 27 e 28 de outubro. Com um mercado de trabalho esfriando desse jeito, a leitura que se firmou no fim da semana foi a de manutenção dos juros, não de nova alta. Juro parado é vento a favor de ativo de risco — mas, como o gráfico mostrou, não de graça e nem em linha reta.
US$ 87 mil de novo, e de novo a parede
Repare no que o gráfico desenhou: esta é a segunda rejeição em torno dos US$ 87 mil em cerca de duas semanas. Quando o preço sobe, falha e volta, o mercado passa a olhar para os níveis com outra régua. Do lado de baixo, os US$ 83.898 são o primeiro divisor: enquanto o BTC se mantiver acima disso, a leitura é de correção dentro de uma recuperação que começou no terceiro trimestre. Perder esse piso confirmaria os US$ 87.085 como um topo mais baixo e deslocaria a próxima leva de liquidações para baixo do preço, com a média móvel de 365 dias perto dos US$ 80 mil como referência seguinte. Do lado de cima, só a reconquista dos US$ 87.000 valida qualquer tentativa de rompimento.
E há um detalhe estrutural que não aparece no preço: o open interest dos futuros perpétuos de Bitcoin está em US$ 67,901 bilhões, cerca de 4% de toda a capitalização do BTC. Alavancagem alta com preço parado é combustível guardado — a próxima oscilação brusca, para cima ou para baixo, tende a forçar mais uma rodada de encerramentos antes da reunião do Fed de 27 e 28 de outubro.
US$ 433 milhões, 100 mil traders: quem entrou alavancado pagou a conta
A assimetria das liquidações conta a história melhor do que qualquer análise. Na janela de 12 horas que cobriu a perna final da queda, foram US$ 201,52 milhões em longs contra apenas US$ 20,87 milhões em shorts — ou seja, 90,6% do estrago caiu sobre quem apostava na alta. No Bitcoin especificamente, as liquidações de longs somaram US$ 74,50 milhões, contra US$ 29,18 milhões dos shorts. A maior ordem individual encerrada foi um ETHUSDT na Binance, de US$ 4,51 milhões.
O recado é simples: o payroll fraco criou a expectativa de alta, e a alavancagem comprou essa expectativa no pior preço possível. Quem estava comprado à vista viu o preço voltar ao ponto de partida. Quem estava comprado com margem viu a posição virar pó.
O Citi virou o jogo no papel
Enquanto o gráfico devolvia o rali, o sell-side fazia o movimento contrário. Em nota divulgada no dia 1º de outubro, o Citi elevou o alvo de 12 meses do Bitcoin de US$ 82.000 para US$ 113.000 — um salto de mais de 37% de uma vez — e subiu também o alvo do Ethereum, de US$ 2.240 para US$ 3.028. O banco projeta US$ 5 bilhões em entradas em produtos de cripto nos próximos doze meses, em ritmo mais lento, porém mais constante, à medida que consultores e corretoras aumentam gradualmente a alocação em bitcoin.
Três argumentos sustentam a tese, segundo o próprio banco: atividade cripto mais forte, um cenário macroeconômico favorável e a retomada dos fluxos para os ETFs. O Citi também registrou que a derrota da CLARITY Act no Senado estreitou o caminho para um projeto de estrutura de mercado — mas que os anúncios de regras da SEC logo depois reduziram o sentimento negativo que vinha do Congresso. É uma leitura importante: mesmo sem a lei, o arcabouço regulatório americano seguiu andando pela porta da agência.
Contexto ajuda a calibrar o otimismo. O Bitcoin subiu cerca de 40% desde as mínimas de julho e o Ethereum, cerca de 68% em três meses. Ainda assim, as perdas no acumulado do ano seguem em torno de 4% para o BTC e 9% para o ETH, e o preço continua perto de 30% abaixo do recorde de outubro de 2025.
Enquanto isso, os ETFs voltaram a comprar
Os fluxos institucionais explicam por que o Citi mexeu no alvo justamente agora. Em 30 de setembro, os ETFs à vista de Bitcoin nos Estados Unidos registraram saída líquida de US$ 148,7 milhões, encerrando uma sequência de nove pregões de entradas que havia acumulado cerca de US$ 3,1 bilhões. No dia seguinte, 1º de outubro, o fluxo virou: entrada líquida de US$ 102,67 milhões, liderada pela IBIT, da BlackRock, com US$ 195,57 milhões em um único dia. Setembro havia fechado com US$ 2,65 bilhões de entradas líquidas acumuladas.
O padrão que importa para quem investe de fora é este: o dinheiro grande não saiu do mercado quando o preço caiu — ele só parou de entrar por um dia e voltou no dia seguinte. É a diferença entre fluxo e manchete.
Dia de eleição: o Brasil vota com o dólar a R$ 5,22 e o Bitcoin a R$ 442 mil
Agora, a parte que é sua. Neste domingo, 4 de outubro, o Brasil vai às urnas no 1º turno da eleição presidencial — e, se nenhum candidato atingir maioria, a disputa vai para o 2º turno em 25 de outubro. O mercado entra nessa semana com dois números na mesa: a PTAX de venda fechou 2 de outubro em R$ 5,2238 (compra a R$ 5,2232), alta de 0,31% no dia, e o Bitcoin vale cerca de R$ 442 mil — com o BTC perto de US$ 84,6 mil e o dólar oficial nesse patamar, uma unidade do ativo passa de R$ 442.469 nas cotações do fim de semana.
O pano de fundo doméstico é peculiar. A Selic está em 13,75% ao ano depois do corte de 16 de setembro, e a próxima reunião do Copom só acontece em 3 e 4 de novembro — ou seja, outubro inteiro corre sem reunião do Banco Central, com o diferencial de juros praticamente congelado. Esse carry alto é o que vem segurando o real: o dólar ainda cai cerca de 7% em 2026 pela PTAX, mesmo depois de devolver parte do ganho no trimestre.
E aqui entra o cenário que interessa a quem compra cripto em reais. Um estudo da Empiricus Research sobre eleições recentes no Chile, na Colômbia e no Peru — todas com alternância de governo — mostrou valorização das moedas locais nos 42 pregões seguintes ao segundo turno: +6,5% no peso chileno, +9% no peso colombiano e +0,6% no sol peruano. Ajustando o movimento brasileiro pela volatilidade, o cenário-base do estudo aponta para um real mais forte, com o dólar entre R$ 4,94 e R$ 4,87; nos cenários conservadores, a faixa fica em R$ 4,93 a R$ 4,94. O Goldman Sachs trabalha com um intervalo ainda mais largo: de R$ 4,50 a R$ 4,80 se houver disciplina fiscal depois da eleição, e até R$ 5,80 se o prêmio de risco voltar aos máximos de dezembro de 2024. A mediana das projeções compiladas pela Bloomberg está em R$ 5,20 para o quarto trimestre.
Vale entender a mecânica, porque ela engana. Com o real mais forte, o mesmo Bitcoin custa menos reais — mas cada real seu compra mais dólar. Quem compra BTC em reais não está fazendo só uma aposta no preço do Bitcoin em dólar: está comprando simultaneamente o ativo e a moeda em que ele é precificado. E, com a Selic a 13,75% e o Fed entre 3,75% e 4,00%, o custo de ficar parado em real não desapareceu — ele só mudou de forma.
O caminho prático para entrar continua curto: cadastro em minutos, depósito via Pix caindo na hora e compra de ativo virtual via Pix que não é operação de câmbio, com a trilha fiscal pronta para a Receita. Só lembre do detalhe que pega todo mundo: o limite noturno padrão do Pix é de R$ 1.000 entre 20h e 6h. Reduzir esse limite o banco atende na hora; aumentar leva de 24 a 48 horas para valer. Se você pretende operar à noite, ajuste antes.
O que já está valendo desde 1º de outubro
Enquanto o mercado olha para a eleição, a regra brasileira andou — e essa parte não espera a urna. Desde 1º de outubro de 2026 está em vigor a Resolução BCB nº 588, de 23 de setembro, que incluiu na comunicação específica ao Coaf as transferências de ativos virtuais para ou de carteiras autocustodiadas de valor igual ou superior a US$ 10 mil. A comunicação é obrigatória mesmo que a operação não apresente nenhum outro indício de irregularidade. Isso não é crime novo nem bloqueio de recursos: é uma obrigação de reporte, criada porque carteiras autocustodiadas oferecem menos informação para monitoramento do que as operações mantidas dentro de instituições autorizadas.
Junto com ela veio a Resolução BCB nº 589, que ampliou o volume de informações que as empresas do setor precisam entregar ao Banco Central — incluindo, para operações de staking, demonstrações verificáveis do total de ativos de clientes alocados nesses serviços.
O calendário duro é este:
- 30 de outubro de 2026: prazo final para as prestadoras que já operavam protocolarem o pedido de autorização no Banco Central. Quem não protocolar encerra as atividades.
- 6 de novembro de 2026: instituições autorizadas passam a ser proibidas de realizar ou viabilizar operações com prestadores fora das condições permitidas pela regulação.
- 1º de janeiro de 2027: entram as medidas antifraude, com retenção cautelar de até 24 horas em transferências acima de US$ 10 mil destinadas a carteiras próprias ou ao exterior — retenção cautelar, não bloqueio definitivo.
O capital mínimo exigido das prestadoras vai de cerca de R$ 10,8 milhões a R$ 37,2 milhões, conforme a atividade, com segregação patrimonial obrigatória. A régua é alta de propósito, e o mercado já está se movendo por causa dela: a Crypto.com encerra a conta em reais em 25 de outubro, a Ripio deixa de manter saldo em reais a partir de 30 de outubro — convertendo depósitos em reais para a stablecoin wBRL, mantendo saques via Pix — e a Bitso encerra o atendimento direto ao varejo no mesmo prazo, migrando os clientes para o Mercado Bitcoin, que está no processo de autorização junto ao BC.
E por que isso importa para o seu bolso? Porque, no Brasil, o ativo digital mais usado não é uma aposta: é o dólar em forma de token. Dos R$ 1,58 trilhão em compra e venda de criptoativos registrados desde agosto de 2019, R$ 1,13 trilhão (71,7%) foi em stablecoins — e, nos últimos dois anos, elas ficaram entre 76% e 80% do volume declarado. Desde julho de 2026, essas operações são informadas à Receita pela DeCripto. Ou seja: a plataforma por onde esse dinheiro passa deixou de ser escolha de conveniência e virou escolha de segurança jurídica. Operar em plataforma autorizada ou em processo de autorização é, agora, o caminho de menor atrito — e quem ficar fora do processo perde acesso a banco, a parceiro de liquidação e a Pix.
O resumo em uma linha
O payroll fraco matou a aposta de alta do Fed e derrubou o preço de quem entrou alavancado; o Citi elevou o alvo para US$ 113 mil no dia seguinte; os ETFs voltaram a comprar; e o Brasil vota neste domingo com o dólar a R$ 5,2238, o Bitcoin a cerca de R$ 442 mil e uma regra nova já valendo desde 1º de outubro. Quatro forças puxando em direções diferentes — e todas elas visíveis no mesmo gráfico.
A pergunta que sobra não é o que o Bitcoin faz na segunda-feira. É se você vai olhar o próximo payroll, a próxima decisão de juros ou o próximo dado de fluxo pelo retrovisor — ou se vai estar posicionado antes de a manchete sair.
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