No fim de setembro, duas das maiores instituições brasileiras pararam de tratar blockchain como assunto de laboratório. No dia 29, a CSD BR — a depositária central que registra mais de R$ 22 trilhões em ativos e é autorizada pelo Banco Central e pela CVM — começou a espelhar registros de titularidade de cotas de fundos de investimento do BTG Pactual no XRP Ledger, a rede pública ligada à Ripple. No dia seguinte, a Petrobras apresentou duas aplicações construídas na Cardano para rastrear os atributos ambientais do combustível de aviação sustentável (SAF) e do seu diesel renovável, o Diesel R.
O detalhe que separa esse movimento de tantos anúncios de tokenização é simples: nos dois casos, a tecnologia entrou dentro de uma infraestrutura que já está em operação, com registro e responsabilidade jurídica definidos. Não é prova de conceito, nem piloto fechado para inglês ver.
O que a CSD BR fez, exatamente
A CSD BR é a operadora de infraestrutura do mercado financeiro brasileiro que faz registro, depósito e liquidação de ativos. Fundada em 2018, ela é autorizada pelo Banco Central e pela CVM — e é justamente essa autorização que dá peso ao que aconteceu agora.
Na primeira fase, as cotas de fundos do BTG Pactual depositadas na CSD BR passaram a ser representadas no XRP Ledger como Multi-Purpose Tokens (MPT), o padrão de token configurável da rede. A blockchain copia a informação de titularidade para que bancos e empresas autorizadas possam comparar a cópia on-chain com o banco de dados oficial quase em tempo real, sem esperar pela reconciliação do fim do dia.
O ponto central é este: o registro oficial continua sendo o da CSD BR. A rede pública funciona como camada adicional de consulta e auditoria. Ela não transfere os ativos subjacentes nem substitui a fonte legal para registro, custódia e liquidação.
Também não é um ambiente aberto. A participação está restrita a clientes corporativos e bancários no Brasil que passaram por processos de KYC e prevenção à lavagem de dinheiro. A CSD BR mantém o controle da emissão e da administração dos tokens, pode congelar ativos individualmente e reverter transações quando houver ordem regulatória ou judicial. A tecnologia de custódia da Ripple entra junto com as funções nativas do XRP Ledger.
“Escolhemos começar pelo espelhamento de registros porque é a forma mais segura e responsável de introduzir uma nova tecnologia em infraestrutura crítica de mercado”, disse Daniel Polano Spreafico, diretor de produtos e clientes da CSD BR.
Por que isso importa para o investidor brasileiro
O problema que esse projeto ataca não aparece na tela do home broker, mas custa dinheiro: reconciliação. Quando você compra uma cota de fundo, a depositária atualiza seus registros de titularidade e o banco que atende você mantém os seus próprios. Esses dois registros precisam bater. Divergência significa atraso, custo operacional e, em casos extremos, negociação travada.
Ao começar pelo espelhamento, nenhum processo de investidor, emissor ou participante muda nesta fase. O perímetro regulatório fica intacto, e o ganho aparece na verificação: instituições aprovadas conseguem checar se o que está na rede pública corresponde ao que está dentro da infraestrutura regulada.
“Ir além de pilotos e provas de conceito para uma infraestrutura de registro em operação real em um mercado de capitais nacional é um marco importante para o setor”, afirmou Silvio Pegado, diretor-geral da Ripple para a América Latina.
Para quem investe pelo Pix, a leitura é direta: o mercado brasileiro está construindo o trilho sobre o qual os próximos produtos tokenizados vão rodar. Em 2026, esse movimento já tinha aparecido em outras frentes — a B3 estreou o futuro de bitcoin em dólar, o piloto do Drex avançou com o Itaú e a ANBIMA na tokenização e a CVM montou um grupo de trabalho dedicado à tokenização, com regras de segurança, segregação patrimonial e supervisão de prestadores em teste.
A Petrobras e a Cardano
No dia 30, a Fundação Cardano anunciou que a Petrobras desenvolveu duas aplicações na blockchain da Cardano. A primeira, feita em conjunto com o Ledger Labs da PUC-Rio, transforma os atributos ambientais do SAF em tokens chamados CS-SAF. O modelo é o book-and-claim: o benefício ambiental pode ser separado do combustível físico e atribuído a uma companhia aérea, a uma empresa ou a um passageiro, mesmo que o SAF tenha sido usado em outro lugar.
Os metadados seguem o padrão do CORSIA, o esquema internacional de compensação de emissões da aviação. Os tokens podem ser emitidos, transferidos, consultados e aposentados — o que impede que a mesma alegação de redução de emissões seja contada duas vezes. Passageiros podem resgatar tokens por meio de um aplicativo e receber um certificado ligado à viagem e à alegação ambiental correspondente.
A segunda aplicação cria pontos de verificação digitais para o Diesel R, o diesel renovável da Petrobras. A ideia é acompanhar produção, transporte e uso do combustível, gerando um histórico contínuo que apoia a divulgação das emissões de Escopo 3 — as emissões indiretas ao longo de toda a cadeia de valor de uma empresa.
A parceria não nasceu agora. Começou em 2023, com treinamento em blockchain para funcionários da Petrobras, e se expandiu em 2025 para pesquisa no setor de energia com a PUC-Rio. E vale ser direto sobre o estágio atual: os dois projetos seguem em pesquisa. A Fundação Cardano não divulgou o volume de combustível envolvido nem um cronograma para uma implementação mais ampla.
O que ainda não aconteceu
É aqui que muita manchete erra. A Ripple não anunciou que os R$ 22 trilhões registrados na CSD BR foram tokenizados, porque não foram. Esse número é o total de ativos registrados na infraestrutura da depositária. O que subiu para a rede pública, nesta fase, são os registros de titularidade de cotas de fundos selecionados do BTG Pactual — e como espelho do registro oficial, não como substituto dele.
Depois de validar o espelhamento, as empresas pretendem avaliar emissão nativa de ativos, negociação entre participantes autorizados, novas classes de ativos e mecanismos mais fortes de confidencialidade. Entre os candidatos de renda fixa estão os CRI (Certificados de Recebíveis Imobiliários) e os CRA (Certificados de Recebíveis do Agronegócio). Não há data definida para nenhuma dessas etapas.
O calendário que decide outubro
Enquanto a tecnologia avança, a regra fecha o cerco — e outubro é o mês mais pesado do ano para o mercado cripto brasileiro.
Em 1º de outubro entrou em vigor a Resolução BCB nº 588, que incluiu entre as comunicações obrigatórias ao Coaf as transferências de ativos virtuais de ou para carteiras autocustodiadas em valor igual ou superior a US$ 10 mil. A mesma norma alcança operações de câmbio com moeda estrangeira em espécie a partir do mesmo valor. Não é crime nem teto: é comunicação, feita pela instituição que executa a operação.
Em 30 de outubro vence o prazo para as prestadoras de serviços de ativos virtuais (PSAVs) já em funcionamento formalizarem o pedido de autorização junto ao Banco Central. Quem estiver fora do processo não continua operando indefinidamente. Em 6 de novembro passa a valer a vedação, trazida pela Resolução BCB nº 589, para que instituições autorizadas realizem ou viabilizem operações com prestadoras de ativos virtuais não autorizadas no país.
E em 1º de janeiro de 2027 entram em vigor a retenção cautelar de até 24 horas da Resolução nº 584 para envios a carteiras autocustodiadas e a prestadoras no exterior, além das novas obrigações de reporte de saldos, provas de reservas e ativos destinados a staking.
O mercado em cima disso
Nesta quinta-feira (1º), o bitcoin operava perto de US$ 83.691, equivalentes a cerca de R$ 435.186, depois de não sustentar a alta da véspera. O ativo chegou a US$ 85.650 com o PCE americano — o núcleo do índice ficou em 0,2% no mês — e devolveu o movimento.
O gatilho do recuo foi o fluxo institucional: os ETFs à vista dos Estados Unidos registraram US$ 148,7 milhões em saídas líquidas na quarta-feira, encerrando uma sequência de nove dias que havia acumulado cerca de US$ 3,1 bilhões em entradas. “O bitcoin permanece sem uma direção clara no curto prazo, oscilando entre US$ 82 mil e US$ 85 mil”, avaliou Noah Cheung, country manager da Bitget no Brasil. O XRP era negociado a US$ 1,48, a Solana a US$ 117,43 e o ether a US$ 2.688,77.
Como o brasileiro entra nisso hoje
Nada do que a CSD BR e a Petrobras fizeram muda o preço de um ativo de um dia para o outro. O que muda é o chão. Um mercado de capitais que registra ativos em rede pública dentro do perímetro regulado é a base sobre a qual produtos com exposição a cripto chegam ao investidor comum com menos atrito — e por onde passa cada vez mais liquidez.
Para quem quer entrar pelo caminho mais simples, o passo a passo continua o mesmo: cadastro com CPF em uma plataforma autorizada a operar no Brasil, depósito por Pix (instantâneo e gratuito na maioria delas) e compra do ativo. Quem prefere guardar as chaves por conta própria precisa saber que, desde 1º de outubro, movimentações de US$ 10 mil ou mais entre a corretora e a sua carteira autocustodiada entram no radar do Coaf — o que muda o registro da operação, não o seu direito de guardar os próprios ativos.
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