A B3 tocou o sino em São Paulo na terça-feira, 15 de setembro, para o DIGY11 — o primeiro ETF listado na bolsa brasileira dedicado a ações preferenciais internacionais de companhias que carregam bitcoin em tesouraria. Dois dias depois, em 16 de setembro, o Copom cortou a Selic para 13,75% ao ano: o quinto corte consecutivo, 1,25 ponto desde março. O piso da renda prometida pelo produto novo desceu na mesma semana em que ele nasceu.
A promessa é CDI mais 3% a 5% ao ano, distribuído em reais, todo mês. O Copom acabou de tirar 0,25 ponto da base desse CDI. A pergunta que importa, então, não é se o produto existe — é quanto o real rende por mês, quanto o fundo cobra, onde o dinheiro está concentrado e o que o investidor abre mão ao trocar a renda fixa de 13,75% por uma cota nova na B3.
O que o DIGY11 é, em uma frase: renda em dólar empacotada em real
O fundo não compra bitcoin. Ele compra a renda distribuída por empresas que já carregam bitcoin nos balanços. A carteira inicial é formada por ações preferenciais perpétuas — papéis que pagam distribuição recorrente e não têm data de vencimento — emitidas pela Strategy, por meio do STRC, e pela Strive, por meio do SATA. Os valores recebidos em dólar são convertidos e pagos aos cotistas em reais, mensalmente, depois das despesas do fundo.
| Item | Dado |
|---|---|
| Estreia | 15 de setembro de 2026, com cerimônia de toque do sino na sede da B3, em São Paulo |
| Carteira inicial | ações preferenciais da Strategy (STRC) e da Strive (SATA), com o STRC na maior parcela — cerca de 95% em STRC e 5% em SATA, conforme divulgado no anúncio do produto |
| Estruturador e distribuidor | Itaú BBA |
| Gestão | 3R Investimentos |
| Índice de referência | MarketVector Bitcoin Treasury Preferred Equity BRL Hedged Index (MarketVector é do grupo VanEck) |
| Administração fiduciária | Banco Daycoval |
| Taxa de administração | 0,90% ao ano |
| Distribuições | mensais, em reais, depois das despesas do fundo |
| Proteção cambial | contratos de câmbio de um mês, renovados mensalmente, com rebalanceamento trimestral |
| Liquidez | diária, na B3, em reais |
| FGC | não conta com garantia do Fundo Garantidor de Créditos |
Essas informações estão na página oficial do produto e foram confirmadas no dia da estreia. A cobertura da Livecoins registra a composição inicial e a presença dos parceiros na cerimônia; o Valor Econômico reporta o pagamento mensal em reais e o Itaú BBA como estruturador e distribuidor.
Duas frases do próprio material do fundo definem o que ele é e o que ele não é: o DIGY11 não investe diretamente em Bitcoin e não busca reproduzir a rentabilidade do bitcoin. Ele captura renda de instrumentos emitidos por companhias com reservas relevantes da moeda.
Digital Credit: a categoria que ganhou trilho em reais
O STRC e o SATA não são ações ordinárias. São preferenciais perpétuas desenhadas para pagar renda recorrente em dólar, e o segmento ganhou escala. O STRC passou de US$ 10 bilhões em valor nocional, com volume médio diário de aproximadamente US$ 160 milhões nos últimos 30 dias, segundo os números divulgados pela OranjeBTC. O dividendo anualizado é de 12% no STRC e 13% no SATA, conforme as divulgações dos emissores.
O dado que sustenta a tese de cobertura é o seguinte: para cada US$ 1 distribuído por ano, os emissores da carteira mantêm aproximadamente US$ 28 em bitcoin e US$ 2 em caixa. O bitcoin fica no balanço das empresas e não é dado em garantia aos preferencialistas — quem compra a preferencial não empresta bitcoin, compra um direito de renda sobre uma empresa que o acumula.
O índice que o fundo segue tem regra de entrada objetiva: só entram preferenciais perpétuas de emissores com mais de 50% dos ativos em bitcoin e pelo menos 4.000 BTC em tesouraria, com filtros adicionais de liquidez, robustez de balanço, alavancagem, volatilidade e cobertura. Michael Saylor, fundador da Strategy, classificou o segmento como “Digital Credit” e descreveu a categoria como uma nova classe de ativos dentro da economia digital.
A idealizadora é a OranjeBTC, companhia brasileira de tesouraria em bitcoin listada na B3 desde outubro de 2025 sob o ticker OBTC3. O DIGY11 é o primeiro produto financeiro do tipo que ela leva ao mercado fora do próprio balanço.
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O problema da conta: o CDI está caindo e a estimativa é CDI + 3% a 5%
A estimativa divulgada é de CDI mais 3 a 5 pontos percentuais ao ano, líquida de custos, com o objetivo de distribuições mensais em reais. Essa estimativa não considera a variação do valor das cotas: é renda de distribuição, não rentabilidade total do investimento.
Quando o produto foi anunciado, em 12 de agosto, a referência de CDI usada era de 14,15% ao ano. Desde então o Copom cortou a Selic duas vezes — em agosto, para 14,00%, e em 16 de setembro, para 13,75%. Com a referência de CDI em torno de 13,65% ao ano, a conta fica assim:
| Cenário | Rendimento anualizado | R$ 10.000 rendem | Equivalente mensal |
|---|---|---|---|
| 100% do CDI (renda fixa de referência) | 13,65% | R$ 1.365 | R$ 113,75 |
| Estimativa DIGY11 — CDI + 3 p.p. | 16,65% | R$ 1.665 | R$ 138,75 |
| Estimativa DIGY11 — CDI + 5 p.p. | 18,65% | R$ 1.865 | R$ 155,42 |
O mecanismo é simples e é o ponto que separa promessa de contrato. A taxa de administração é fixa, de 0,90% ao ano. O prêmio sobre o CDI é um alvo, não uma cláusula: se a base cai, o prêmio em pontos percentuais continua igual e o valor em reais encolhe. Entre o anúncio e a estreia, a base caiu cerca de 0,50 ponto percentual em dois encontros do Copom.
O pano de fundo do corte é este, segundo o próprio Banco Central: a inflação de agosto caiu 0,32% no mês e ficou em 4,22% em 12 meses. As projeções do Boletim Focus para 2026 e 2027 estão em 4,9% e 4,3%, ambas acima da meta. A projeção do Copom para o primeiro trimestre de 2028 — o horizonte relevante da política monetária — é de 3,2%. A decisão foi unânime. Foi o primeiro corte de juros do Banco Central às vésperas de uma eleição em duas décadas, e o primeiro turno está marcado para 4 de outubro. Os documentos oficiais estão em publicações do Copom.
A conclusão é afirmativa, não condicional: quem compra o DIGY11 está comprando um prêmio de crédito e uma tese de renda em dólar, e assume o risco de a base do CDI continuar descendo a cada 45 dias.
O risco é concentração, e ele tem nome: 95% em um único emissor
A carteira inicial é, na prática, uma aposta em um papel só: cerca de 95% em STRC. O destino do fundo fica amarrado à capacidade da Strategy de sustentar a distribuição da preferencial perpétua. Preferencial perpétua não vence: o pagamento depende de decisão de distribuição do emissor, não do calendário de um devedor tradicional. Se a distribuição for reduzida, o fundo recebe menos e distribui menos.
Não há cobertura do FGC neste produto. O investidor carrega risco de crédito do emissor, risco de mercado e risco de liquidez da cota, e nenhum deles é segurado pelo Fundo Garantidor de Créditos.
E há um ponto que costuma ser lido errado: o DIGY11 não participa da alta do bitcoin linha a linha. Ele captura renda. Se o setor de tesourarias corporativas cair de humor, a cota pode cair junto sem que o pagamento mensal acompanhe o preço do bitcoin.
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Bitcoin a US$ 81 mil: onde o preço está e o que isso vale em reais
A sexta-feira, 18 de setembro, fechou com o Bitcoin acima dos US$ 80.000: alta de aproximadamente 6% no dia, máxima intradiária de US$ 81.238 e fechamento perto de US$ 80.800. Em 19 de setembro, por volta de 06:38 UTC, a moeda era negociada a US$ 81.043, subindo 4,58% em 24 horas — o primeiro período sustentado acima dos US$ 80 mil desde 7 de setembro, segundo a cobertura do Cointelegraph Brasil.
O combustível da alta foi mecânico, e isso importa para quem está decidindo agora. Aproximadamente US$ 238 milhões em posições short de Bitcoin foram liquidadas e cerca de US$ 470 milhões em posições vendidas do mercado cripto como um todo foram encerradas à força em 24 horas. No mesmo dia, os ETFs spot de Bitcoin dos Estados Unidos registraram US$ 159,5 milhões de entrada, depois de US$ 520 milhões de saída no início da semana. É compra forçada de quem estava posicionado no lado errado somada a fluxo institucional que voltou — movimento real de preço, indicador fraco do próximo passo.
No cenário macro, o Fed subiu os juros em 16 de setembro, para 3,75%-4,00%, o Banco do Japão elevou a taxa para 1,25% por 7 votos a 2, e o rendimento do Treasury de 30 anos tocou 5,34%. O bitcoin subiu no meio do aperto.
Os níveis que decidem a continuidade são objetivos: US$ 82.200 é a resistência que precisa ser rompida em fechamento diário; acima dela, as referências são US$ 85.000 e depois a média móvel de 100 dias, perto de US$ 88.000. Em baixo, a média exponencial de 20 dias em US$ 77.162 é o primeiro suporte, e a média exponencial de 200 dias, em aproximadamente US$ 73.077, marcaria a falha do rompimento.
Convertendo pela PTAX de venda do Banco Central de 18 de setembro de 2026, R$ 5,1575 por dólar, sem spread e sem taxa de corretora:
| Nível do Bitcoin (US$) | Preço em reais | BTC com R$ 1.000 | BTC com R$ 10.000 |
|---|---|---|---|
| EMA de 200 dias — US$ 73.077 | R$ 376.894,63 | 0,00265327 BTC | 0,02653261 BTC |
| EMA de 20 dias — US$ 77.162 | R$ 397.963,01 | 0,00251280 BTC | 0,02512796 BTC |
| Fechamento de 18/09 — US$ 80.800 | R$ 416.726,00 | 0,00239966 BTC | 0,02399658 BTC |
| Marca de 19/09 — US$ 81.043 | R$ 417.979,27 | 0,00239246 BTC | 0,02392463 BTC |
| Máxima de 18/09 — US$ 81.238 | R$ 418.984,98 | 0,00238672 BTC | 0,02386720 BTC |
| Resistência — US$ 82.200 | R$ 423.946,50 | 0,00235879 BTC | 0,02358788 BTC |
O mesmo R$ 1.000 compra 251.280 satoshis na linha da EMA de 20 dias e 235.879 satoshis na linha da resistência de US$ 82.200 — uma diferença de 15.401 satoshis, cerca de 6,4%, decidida por um intervalo de US$ 5.038 na cotação. Com R$ 10.000 no nível de US$ 81.043, a compra é de 0,02392463 BTC. A cotação de referência está nas cotações oficiais do Banco Central.
Pix, limite noturno e o caminho para o Bitcoin direto
Para a parte da carteira que vai para preço, e não para renda, o trilho é o Pix. No período diurno, entre 6h e 20h, o limite de transferência para pessoa física é definido pela sua instituição. No período noturno, entre 20h e 6h, o limite de transferência a outra pessoa física é de R$ 1.000, salvo solicitação expressa do usuário. O início do período noturno pode ser deslocado das 20h para as 22h, e o pedido passa a valer entre 24 e 48 horas depois de registrado no aplicativo do banco.
O roteiro de aporte é curto: valide a conta com CPF e documento, entre em Depositar, escolha BRL e Pix, gere o QR Code ou copie a chave, envie do aplicativo do banco a partir de conta com o mesmo CPF — depósito de terceiro é recusado — e, com o saldo creditado, abra o par BTC/BRL e execute com ordem limitada. Depósito por Pix costuma ser gratuito e cai em segundos, 24 horas por dia, todos os dias. Guarde comprovante do Pix, ordem executada com data e hora, tarifa e cotação em reais.
Bitcoin direto é exposição a preço. DIGY11 é renda de distribuição. Não são substitutos: quem quer capturar o rompimento de US$ 82.200 não encontra isso no ETF, e quem quer renda mensal em reais com proteção cambial não encontra isso comprando satoshi na tela.
Tributação: o ETF não tem a isenção de R$ 20 mil
Nos ETFs de renda variável não existe a isenção de R$ 20 mil por mês nas vendas que existe para ações. Qualquer venda com lucro é tributada. As alíquotas são de 15% em operação comum e 20% em day trade, com recolhimento mensal por DARF até o último dia útil do mês seguinte ao da operação — as regras estão no passo a passo da B3. Os ganhos tributáveis são informados na aba de operações comuns/day trade e o imposto pago é lançado na ficha de imposto pago ou retido na fonte.
As distribuições mensais do fundo aparecem no informe de rendimentos do administrador; confira ali a natureza do valor antes de declarar. Para o Bitcoin comprado direto, a regra é outra: R$ 35.000 em alienações de criptoativos no mês, considerando o conjunto das vendas da pessoa física, com isenção do ganho de capital dentro desse teto. Compra não consome o teto; venda, permuta e outras formas de alienação consomem. A orientação oficial está na Receita Federal.
O que fazer com isso na segunda-feira
O DIGY11 resolve um problema que o investidor brasileiro antes tinha de resolver abrindo conta no exterior: transformar renda em dólar do setor de tesourarias de bitcoin em distribuição mensal em reais, com proteção cambial, negociada na B3, sem giro de câmbio próprio. O CFO da OranjeBTC resumiu o ganho operacional: o investidor não precisa abrir conta fora, fazer câmbio nem escolher papel por papel.
O preço dessa conveniência é conhecido: concentração em um papel só, ausência de cobertura do FGC e uma estimativa cujo alvo é um prêmio sobre uma base que o Copom está derrubando 0,25 ponto a cada 45 dias.
A conta a fazer não é “ETF ou bitcoin”. É quanto do seu capital vai para renda e quanto vai para preço. Quem tem 13,75% de Selic na mesa convive com o custo de oportunidade mais alto entre as grandes economias emergentes — e a decisão de alocar fora da renda fixa agora precisa ser deliberada, com tamanho de posição definido antes de qualquer compra.
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