A eleição presidencial brasileira vai ser decidida em 25 de outubro. Com 99,39% das urnas apuradas na noite deste domingo (4), o senador Flávio Bolsonaro (PL) terminou o primeiro turno com 47,15% dos votos válidos — 55.909.203 votos — contra 45,02% do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que somou 53.391.858. Ninguém passou de 50% dos válidos, e a eleição que a maior parte das pesquisas apontava como disputa de voto a voto, com o presidente na frente, terminou com a ordem invertida na contagem oficial do TSE.

Para quem investe em cripto no Brasil, existe uma diferença prática entre este resultado e todos os outros que o país já viveu: a B3 estava fechada, mas o bitcoin não.

O placar que contrariou as pesquisas

O primeiro turno fechou com dois candidatos separados por cerca de 2 milhões de votos e nada mais. O terceiro colocado, Augusto Cury (Avante), ficou com 2,90% dos válidos; o quarto, Renan Santos (Missão), com 2,25%. A partir de agora são pouco mais de três semanas para os dois primeiros ampliarem base, negociarem apoios com os eliminados e reduzirem rejeição antes da votação decisiva.

A leitura de que houve surpresa é sustentada pelos próprios levantamentos da reta final. O Datafolha divulgado em 3 de outubro mostrava Lula com 45% e Flávio com 42% dos votos válidos, com margem de erro de dois pontos. A apuração entregou o contrário, e a explicação mais repetida entre analistas é a migração de indecisos e de eleitores de direita no fim de semana — o tipo de movimento que nenhum instituto consegue capturar depois de encerrar o campo.

Para o mercado, o dado que importa não é quem terminou na frente. É a distância entre o que estava precificado e o que apareceu na urna — porque é essa diferença, e não o número absoluto, que move preço na abertura.

O que já estava no preço até sexta-feira

O Ibovespa encerrou sexta-feira (2) aos 192.114 pontos, alta de 2,63% no dia e 4,71% na semana, a cerca de 5% da máxima histórica de 199.354 pontos registrada em abril. O volume negociado na B3 somou R$ 31,1 bilhões, bem acima da média de 50 pregões, de R$ 19,7 bilhões — dinheiro entrando antes da urna, não depois.

No câmbio, o dólar à vista fechou a R$ 5,2158 (-0,08%), o PTAX de venda ficou em R$ 5,2238 (+0,31%) e o contrato futuro de dólar terminou a R$ 5,239 (-0,41%). O fluxo estrangeiro ajudou a explicar o apetite: a B3 registrou entrada líquida de R$ 323 milhões em 30 de setembro, fechou setembro com R$ 9,1 bilhões e acumula R$ 27,6 bilhões no ano. Os juros americanos, por outro lado, continuaram apertando: o Treasury de 2 anos subiu a 4,835% e o de 10 anos a 5,288%.

O pano de fundo doméstico segue morno na atividade: a produção industrial recuou 0,6% em agosto na comparação mensal e 1,2% na comparação anual. Quem olha só o Ibovespa não vê esse detalhe.

Os cenários que os analistas desenharam para esta segunda

O primeiro pregão depois de uma votação é onde as proteções montadas antes do fim de semana são desmontadas de uma vez — e, por isso, costuma exagerar. O que o mercado vai tentar medir é se o resultado de domingo muda alguma coisa na trajetória fiscal, e não em quem ganha a eleição.

Nas contas de Flávio Conde, da Inside, o mercado vinha precificando algo perto de 50% de chance para cada lado: com Lula, o Ibovespa cairia na direção dos 170 mil pontos; com Flávio, subiria para perto dos 220 mil. Na quinta-feira (1), o índice estava em 187.197 pontos — exatamente no meio do caminho entre os dois cenários.

No câmbio, o Goldman Sachs trabalha com uma faixa larga: R$ 4,50 a R$ 4,80 se o cenário pós-eleitoral for lido como fiscalmente mais rígido, R$ 5,80 se o prêmio de risco voltar ao pico de dezembro de 2024, e um cenário extremo de R$ 4,35 tomando como referência o ciclo colombiano. A estrategista do banco, Teresa Alves, foi explícita sobre uma coisa: o que mexe no câmbio é a mudança de política depois da eleição, não o resultado em si.

O precedente mais próximo é o de 3 de outubro de 2022, o primeiro pregão após o primeiro turno daquele ano: Ibovespa +5,54% e dólar -4,09% em um único dia.

Vale guardar dois detalhes de mecânica que costumam passar batido. O primeiro: o Ibovespa mede ações, e a maior parte das empresas listadas não tem receita ligada a cripto — o que acontece na B3 chega ao mercado de cripto por dois canais, o dólar e o apetite a risco. O segundo: abertura não é tendência. Um movimento consistente aparece de forma coerente em dólar, juros e bolsa ao mesmo tempo; quando um sobe e o outro desce, é ruído.

O bitcoin não esperou a B3 abrir

Enquanto a bolsa brasileira estava fechada no fim de semana, o mercado de cripto continuou funcionando — 24 horas por dia, sete dias por semana, sem pregão, sem leilão de abertura e sem horário de fechamento. Na prática, quem tem conta em corretora com Pix pôde acompanhar e negociar a leitura do resultado de domingo à noite, horas antes de o primeiro negócio sair na B3 nesta segunda-feira.

O que o gráfico mostrava na virada do domingo para a segunda: o bitcoin estava a US$ 86.525,14 às 00h00 UTC de 5 de outubro, alta de 1,97% em 24 horas. Em reais, uma unidade segue na casa dos R$ 449 mil, considerando a referência de fechamento de sexta-feira. A faixa de 24 horas registrada no dia 3 tinha mínima de US$ 83.898,29 e máxima de US$ 87.085,81 — e essa máxima já é a segunda tentativa de romper a região dos US$ 87 mil em pouco mais de uma semana.

O lado comprador tem um argumento concreto na mesa. Os ETFs americanos de bitcoin à vista registraram entrada líquida de US$ 82,9 milhões entre 28 de setembro e 2 de outubro, com fluxo positivo em quatro dos cinco pregões, segundo dados preliminares da Farside Investors. É bem menos do que os US$ 2,39 bilhões da semana anterior — mas é fluxo positivo. No acumulado do trimestre, os ETFs à vista absorveram US$ 6,3 bilhões.

Os detalhes diários contam uma história melhor. Em 30 de setembro, os fundos tiveram saída líquida de US$ 148,7 milhões, encerrando nove pregões seguidos de entradas. Em 1º de outubro, viraram: entrada de US$ 102,7 milhões, com destaque para o IBIT, da BlackRock, e seus US$ 195,57 milhões em um único dia.

E existe o outro lado, o que a Glassnode mede: às 04h20 UTC de 2 de outubro, oito horas antes do payroll, US$ 50 milhões em posições vendidas foram encerradas à força em dez minutos. O open interest dos futuros subiu US$ 2,1 bilhões nas 24 horas que antecederam o dado de emprego e caiu US$ 1,5 bilhão depois. Traduzindo: parte da alta não foi compra nova de quem acredita no ativo — foi alavancagem entrando atrasada e saindo no primeiro solavanco.

Depois das 10h de Brasília desta segunda, o ISM de serviços dos Estados Unidos (referência de setembro) entra na conta e pode mexer com o dólar, que é o canal pelo qual o mercado cripto sente o Brasil.

Os dois candidatos que falavam de bitcoin ficaram pelo caminho

Uma consequência direta do placar: os dois nomes que tinham proposta específica para cripto na campanha não chegaram ao segundo turno. Renan Santos (2,25%) prometeu no Blockchain.RIO 2026 criar uma reserva nacional de bitcoin e fazer do Brasil “a maior nação crypto-friendly” do mundo. Ronaldo Caiado, que ficou fora da disputa com 2,34%, havia protocolado no TSE um plano de governo com alienação antecipada de criptomoedas apreendidas do crime organizado — o que, na prática, é leiloar o ativo antes do fim do processo.

Com os dois fora, a agenda cripto brasileira deixa de depender de promessa de candidato e passa a depender de calendário de regulador. E esse calendário já está marcado.

A conta que não espera a urna: 30 de outubro

Cinco dias depois do segundo turno, em 30 de outubro de 2026, vence o prazo para que as empresas que já operavam com criptoativos no Brasil protocolem o pedido de autorização como PSAV (Prestadora de Serviços de Ativos Virtuais) no Banco Central. Quem protocola dentro do prazo continua operando durante a análise. Quem não protocola precisa encerrar os serviços em até 90 dias.

O resto da fila é igualmente duro:

  • 30 de outubro de 2026: fim do prazo de protocolo. O capital mínimo exigido vai de R$ 10,8 milhões a R$ 37,2 milhões, conforme a atividade, com segregação patrimonial obrigatória — e o mercado estima R$ 5 milhões a R$ 10 milhões por ano só para manter a estrutura de conformidade de pé.
  • 6 de novembro de 2026: instituições autorizadas passam a ser proibidas de realizar ou viabilizar operações com prestadores que estejam fora das condições permitidas pela regulação.
  • 1º de janeiro de 2027: entra em vigor a retenção cautelar de até 24 horas para transferências de US$ 10 mil ou mais por operação isolada ou soma diária, quando destinadas a exchanges estrangeiras ou a carteiras de autocustódia — retenção para análise, não bloqueio definitivo.
  • Já em vigor desde 1º de outubro: a comunicação obrigatória ao Coaf de transferências de US$ 10 mil ou mais para ou de carteiras autocustodiadas. É obrigação de reporte, não crime novo.

O ajuste já está mudando o mapa do setor em 2026. Bitnuvem e NovaDAX encerraram operações no Brasil alegando custo e exigência regulatória, o Z.ro Bank parou de atender pessoa física e a Bybit reduziu derivativos, migrando clientes para uma entidade local. A Bitso transferiu a operação de varejo para o Mercado Bitcoin, que está no processo de autorização junto ao BCB.

E por que isso é assunto de investidor, não só de empresa? Porque o ativo digital mais usado no Brasil não é aposta em tecnologia, é dólar em forma de token. Dos R$ 1,58 trilhão em compras e vendas de criptoativos registradas desde agosto de 2019, R$ 1,13 trilhão (71,7%) foi em stablecoins — e nos últimos dois anos elas ficaram entre 76% e 80% do volume. Desde julho de 2026, essas operações são informadas à Receita pela DeCripto. A plataforma por onde esse dinheiro passa deixou de ser escolha de conveniência e virou escolha de segurança jurídica.

A semana que começa nesta segunda

O calendário não dá trégua ao resultado da urna:

  • Segunda (5): Boletim Focus do BCB às 8h25 — a primeira mediana de projeções revisada depois do primeiro turno —, PMI composto da S&P Global às 10h e, nos Estados Unidos, o ISM de serviços às 10h de Nova York.
  • Terça (6): balança comercial de setembro, pela Secex, às 15h.
  • Quinta (8): IPC-S da FGV às 8h e a Pesquisa Industrial Mensal Regional do IBGE às 9h.
  • Sexta (9): o dia mais pesado para o real. O IPCA de setembro sai às 9h, com o Bradesco projetando alta de 0,75% e o Itaú, 0,79%. Se confirmado, a inflação em 12 meses sai de 4,2% para 4,5% — puxada, entre outras coisas, pelo reembolso do bônus de Itaipu nas contas de luz. Para referência, o IPCA-15 de setembro já havia vindo com alta de 0,70%, acumulando 4,47% em 12 meses.
  • Na semana: a ata da reunião de setembro do FOMC.

Mais à frente, dois compromissos fecham o ciclo: o Copom se reúne em 3 e 4 de novembro e o FOMC, em 27 e 28 de outubro — este último oito dias depois do segundo turno.

Como entrar com Pix — e o detalhe do limite noturno

O caminho do brasileiro para qualquer um desses ativos continua sendo o mesmo, e continua curto: cadastro com CPF e documento com foto, depósito via Pix que cai na hora — sem taxa na maioria das plataformas — e compra direto na tela, sem passar por operação de câmbio. Uma pesquisa nacional do Datafolha com a Paradigma mostrou que 17,2% dos brasileiros acima de 16 anos já tiveram cripto, o equivalente a quase 29 milhões de pessoas, mais que o dobro do total que já teve ações.

O USDT cumpre aí um papel específico: é um token atrelado ao dólar, comprável em valores pequenos e a qualquer hora, o que permite a quem opera em reais acompanhar o movimento do câmbio sem abrir conta no exterior. Em semana de eleição, com o dólar reagindo a cada nova pesquisa e a cada ato de campanha, é a ferramenta de liquidez mais direta que existe para quem quer esperar o próximo capítulo sem ficar fora do mercado.

O detalhe que pega todo mundo é operacional: o limite noturno padrão do Pix é de R$ 1.000 entre 20h e 6h. Reduzir esse limite o banco atende na hora; aumentar leva de 24 a 48 horas para valer. Se o plano é operar depois do debate ou na noite do segundo turno, o ajuste precisa ser feito antes — não na hora.

O que olhar até 25 de outubro

O placar está na mesa: Flávio 47,15%, Lula 45,02%, segundo turno em 25 de outubro, três semanas de campanha pela frente e uma agenda macro que não para. Nos próximos pregões, o que vai dizer se o mercado acreditou no resultado não é o número da abertura de segunda, e sim a coerência entre dólar, juros longos e Ibovespa — e, no cripto, entre o fluxo dos ETFs e a capacidade do bitcoin de finalmente segurar os US$ 87 mil. Depois disso, o cronômetro que ninguém consegue adiar: 30 de outubro, cinco dias após a urna.

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