Seu dinheiro aparece no saldo da corretora, mas o saque está suspenso. Para quem colocou reais via Pix ou enviou USDT à Bitget, essa é a preocupação imediata: quando será possível movimentar os próprios ativos?
Três números ajudam a entender o caso: a estimativa inicial de US$ 351,6 milhões foi elevada para US$ 387,5 milhões, enquanto a empresa afirma ter um fundo de proteção superior a US$ 464 milhões. A existência desse fundo, porém, não informa quando os saques voltarão.
O que aconteceu e quando os saques pararam
Em 24 de setembro de 2026, às 15h31 de Brasília, ou 18h31 UTC, a segurança da Bitget detectou transferências não autorizadas. A exchange, sediada em Seychelles, identificou comprometimento em parte das camadas de carteiras quentes e mornas. As carteiras frias ficaram fora do alcance do ataque.
A sequência reúne quatro pontos:
- 24 de setembro: detecção das movimentações e divulgação inicial de US$ 351,6 milhões afetados, com suspensão dos saques, como registra a Bloomberg.
- Explicação da direção: a CEO Gracy Chen descreveu a invasão de um sistema de infraestrutura e descartou vazamento de chaves privadas.
- 25 de setembro: a estimativa passou a aproximadamente US$ 387,5 milhões; a empresa lançou recompensa de 5% sobre valores congelados ou recuperados.
- Situação informada: os saques continuam suspensos preventivamente para revisão de segurança. A Bitget diz que anunciará uma janela de retomada após as confirmações necessárias.
Segundo a empresa, os saldos dos clientes estão corretos, e depósitos e negociações funcionam normalmente. Isso não equivale à disponibilidade para retirada. Também não permite concluir que clientes perderam definitivamente o acesso ao dinheiro.
O ataque enganou o processo de autorização
O ponto incomum está no caminho usado para movimentar os ativos. Segundo a explicação apresentada, os invasores comprometeram um sistema crítico de retaguarda, falsificaram dados de transações e acionaram o próprio fluxo de autorização e assinatura da Bitget. A BleepingComputer detalha o comprometimento da infraestrutura de carteiras.
Em linguagem simples, carteiras quentes ficam ligadas à operação online; as mornas representam uma camada intermediária de acesso; as frias mantêm as chaves fora dessa rotina conectada. Neste episódio, apenas partes das duas primeiras camadas foram atingidas. A CEO afirma que o vazamento de chaves privadas foi descartado.
Foram 19 transferências, distribuídas entre Ethereum, XRP Ledger, Arbitrum, Avalanche, Optimism, BNB Smart Chain e Base. Na contagem on-chain da Lookonchain, a maior perda por rede foi de 102,93 milhões de XRP, cerca de US$ 157,48 milhões. Outra parcela foi de 31.890 ETH, aproximadamente US$ 85,75 milhões.
É essencial separar os produtos: o aplicativo de autocustódia Bitget Wallet não foi afetado, segundo as informações divulgadas. Sua infraestrutura é independente da exchange.
De US$ 351,6 milhões a US$ 387,5 milhões: a conta do fundo
A revisão acrescentou Zcash e parte dos saldos em TRON que haviam ficado fora do cálculo inicial. Portanto, os US$ 387,5 milhões representam uma atualização da estimativa do mesmo incidente, não a divulgação de outro ataque.
O fundo de proteção dos usuários reúne 5.500 BTC, avaliados em mais de US$ 464 milhões. A Bitget afirma que esse patrimônio é suficiente para absorver integralmente o prejuízo.
Na comparação com US$ 464 milhões, a estimativa antiga equivalia a aproximadamente 76%. A nova consome uma parcela ainda maior do valor de referência. Como o fundo é composto por bitcoin, sua avaliação em dólares acompanha o preço do ativo: o número divulgado precisa ser entendido nesse contexto.
Para o cliente, há duas questões distintas a acompanhar: a capacidade declarada de cobrir as perdas e a conclusão da revisão que permitirá reabrir saques. Um fundo anunciado não substitui evidências verificáveis de reservas nem uma comunicação objetiva sobre o acesso aos ativos.
A suspeita sobre a Coreia do Norte ainda não é conclusão
Gracy Chen afirmou que investigadores identificaram um IP compatível com uma VPN usada por um grupo norte-coreano. Características da operação também lembrariam ataques anteriores associados à Coreia do Norte, segundo o relato abordado pelo Gizmodo.
A atribuição é preliminar e ainda não foi confirmada. A CEO também descartou participação interna. Mandiant, SlowMist e autoridades policiais participam da investigação; algumas redes já congelaram endereços dos atacantes.
Ben Zhou, CEO da Bybit, ofereceu ajuda e ampliou o uso da plataforma LazarusBounty para rastrear os recursos. Essas iniciativas e a recompensa da Bitget são esforços de recuperação, sem comprovar a devolução integral dos valores.
Brasil: Pix, autocustódia e autorização entram na mesma conversa
Para o brasileiro, a pergunta vai além do saldo em dólares. Quem usa reais, Pix e transferências de USDT precisa conferir tanto a segurança da custódia quanto a possibilidade de relacionamento da plataforma com o sistema bancário local.
Em 23 de setembro, o Banco Central publicou as resoluções BCB 588/2026 e 589/2026. O calendário anunciado contém obrigações com vigência posterior à publicação desta matéria. A Resolução BCB 588 integra esse conjunto de mudanças.
A partir de 1º de outubro de 2026, transferências de criptoativos de ou para carteiras de autocustódia, a partir de US$ 10 mil, deverão ser comunicadas ao Coaf pelo prestador que executar a operação. Como explica a Let’s Money, a obrigação é do prestador, não do cliente. A medida não proíbe a transferência nem estabelece um teto para ela.
Outra etapa começa em 1º de janeiro de 2027: prestadores deverão enviar periodicamente ao BCB saldos de clientes, quantidades e valores sob custódia, provas de reservas verificáveis por ativo e informações sobre posições em staking. O Livecoins aborda esse monitoramento. Para o investidor, isso reforça a importância de cobrar comprovação por ativo.
Há também o acesso bancário: 30 de outubro de 2026 é o prazo para prestadores já em operação solicitarem autorização. A partir de 6 de novembro de 2026, bancos e instituições de pagamento não poderão executar ou intermediar transações com prestadores sem autorização para atuar no Brasil. A Agência Brasil apresenta as novas regras.
A situação de cada exchange deve ser conferida na lista oficial do BCB. Aceitar Pix não comprova autorização brasileira. Ao comparar Bitget, Mercado Bitcoin ou outra plataforma, faça essa verificação individual, sem presumir o resultado pelo nome ou pelo meio de pagamento.
Esses caminhos de compra e transferência não conferem proteção de depósito bancário aos criptoativos. O Brasil não dispõe de uma garantia contra quebra de exchanges equivalente ao SIPC americano. A prioridade prática é evitar manter investimentos de longo prazo na corretora e exigir reservas verificáveis.
O registro fiscal também faz parte da rotina. Desde julho de 2026, a comunicação de operações segue a IN RFB nº 2.291/2025, a DeCripto, alinhada ao CARF da OCDE. A Receita Federal informa que stablecoins representam cerca de 80% do volume historicamente declarado. Guarde comprovantes: operações deixam registros na blockchain e na esfera tributária.
O bitcoin já oscilava antes da notícia
Em 25 de setembro, o bitcoin rondava US$ 84 mil, com intervalo de aproximadamente US$ 77,9 mil a US$ 87,3 mil nos sete dias anteriores, conforme os dados do CoinGecko reunidos para esta matéria.
O ataque ocorreu, portanto, em um mercado já instável. Esse contexto pode ampliar o medo, mas não demonstra que o incidente provocou toda a oscilação observada.
Sete medidas para cuidar dos seus ativos
- Consulte a lista de autorizações do BCB antes de escolher a plataforma e usar seus canais de entrada ou saída em reais.
- Exija provas de reservas verificáveis, discriminadas por ativo, para avaliar a custódia oferecida.
- Planeje retirar posições de longo prazo da exchange, aprendendo a operar uma carteira própria antes de transferir.
- Teste com um valor pequeno quando o saque estiver disponível e confira o recebimento antes de ampliar a transferência.
- Ative autenticação em dois fatores e lista de endereços permitidos, quando esses recursos estiverem disponíveis.
- Mantenha a frase de recuperação fora da nuvem e proteja sua cópia contra acesso de terceiros.
- Distribua o risco entre plataformas, evitando concentrar toda a parcela destinada a negociações em uma única empresa.
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Antes de movimentar o restante do patrimônio, confirme as condições de saque e teste o destino com uma quantia pequena.
