Tem gente que descobriu esta semana que tinha bitcoin parado dentro do aplicativo de cashback que usa para juntar pontos no supermercado. Essa gente tem até 30 de outubro para zerar esse saldo. A Méliuz (CASH3) divulgou na quarta-feira (7) o encerramento da função de compra e venda de bitcoin no app: os aportes já estavam bloqueados desde 1º de outubro, e quem não vender dentro do prazo terá o saldo liquidado automaticamente a preço de mercado, com o valor em reais creditado na conta digital da própria empresa. É a diferença entre você escolher o preço e o calendário escolher por você.
O que a Méliuz encerrou — e o que ela não encerrou
Primeiro, o que sai do ar: só o serviço de varejo, aquela aba do app onde o usuário comprava e vendia BTC. A empresa classificou o recurso como acessório, usado por uma parcela pequena da base de clientes, e disse que essa operação “não vai afetar os resultados da companhia”. Sobre o motivo, foi direta: as novas exigências regulatórias do Banco Central para empresas que oferecem criptoativos ao consumidor final. A Méliuz afirmou que teria condições de obter as autorizações necessárias, mas avaliou que o custo e o esforço operacional não se justificam diante das prioridades de produto — e deixou a porta aberta para reavaliar no futuro.
Agora o que não saiu do ar — e é aqui que a leitura errada custa caro. A Méliuz continua com bitcoin no próprio balanço. Em maio de 2025, os acionistas aprovaram a transformação da companhia na primeira empresa listada no Brasil a ter o bitcoin como principal ativo de sua tesouraria. Segundo dados do BitcoinTreasuries citados pela imprensa, são cerca de 604,7 BTC, adquiridos por aproximadamente US$ 62,5 milhões, a um preço médio de US$ 103,3 mil por unidade. Com o bitcoin na casa dos US$ 81 mil, essa posição carrega perda não realizada perto de US$ 13,5 milhões. Mesmo assim, a empresa diz manter a convicção no ativo como reserva de valor de longo prazo e o compromisso de gerar BTC Yield — a métrica que mede a variação da quantidade de bitcoin por ação, popularizada pela Strategy, de Michael Saylor. No segundo trimestre, a Méliuz apresentou BTC Yield acima de 1.000% desde o início da estratégia.
E o app não é a única frente em movimento na empresa. Na segunda-feira (5), fato relevante informou que os acionistas aprovaram uma redução de capital social de R$ 160 milhões, destinada à formação de reserva de capital, sem cancelamento de ações nem distribuição de dinheiro aos acionistas — a justificativa foi ajuste de capital excessivo. A mesma assembleia aprovou um novo plano de opção de compra de ações, substituindo o plano de 2020. Em agosto, a companhia já havia anunciado um programa de recompra de até 10% das ações em livre circulação, com prazo até fevereiro de 2028, e ampliado a estratégia de tesouraria com derivativos de bitcoin — segundo a empresa, sem alavancagem.
Por que agora: o novo regime das prestadoras de serviços de ativos virtuais
O pano de fundo é o pacote que o Banco Central publicou em novembro de 2025 para o setor de ativos virtuais. A Resolução BCB 519 criou e disciplinou as sociedades prestadoras de serviços de ativos virtuais (as SPSAV) e estabeleceu que essas empresas precisam de autorização para funcionar. A Resolução BCB 520 fechou a torneira do outro lado: bancos, instituições de pagamento e demais instituições supervisionadas pelo BC não podem manter relacionamento operacional com prestadoras que não estejam autorizadas ou com pedido em tramitação — a vedação alcança negociação, intermediação, custódia, pagamentos e serviços correlatos. A Resolução BCB 521 levou parte dessas operações para o guarda-chuva do mercado de câmbio e capitais internacionais. As regras entraram em vigor em 2 de fevereiro de 2026, com o Banco Central ajustando depois o cronograma operacional e normas de transição.
Para entrar no novo regime, a empresa precisa comprovar requisitos que custam dinheiro e estrutura: capital mínimo compatível com as atividades exercidas, segregação patrimonial entre os ativos dos clientes e o patrimônio da instituição, estrutura formal de prevenção à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo (PLD/FT), compliance, auditoria interna e segurança cibernética. As Resoluções BCB 552 e 553, de 2026, reforçaram as exigências de governança. Traduzindo para o dia a dia do brasileiro: o “botão de comprar cripto” que apareceu dentro de bancos, carteiras digitais, apps de varejo e fintechs passou a ter uma conta regulatória — e em muitos casos essa conta não fecha.
30 de outubro não é uma data da Méliuz. É a data do Banco Central.
Aqui está o ponto que interessa a todo mundo que compra cripto no Brasil, não só aos clientes da Méliuz. 30 de outubro de 2026 é o prazo-limite para as prestadoras de serviços de ativos virtuais que já operavam protocolarem o pedido de autorização junto ao Banco Central. A consequência de perder essa data é dura e tem prazo próprio: quem não protocolar precisa encerrar a atividade em 30 dias, com devolução ordenada dos ativos dos clientes e corte de acesso a contrapartes autorizadas — e não há previsão de prorrogação. Para quem protocolar fora do prazo, a regra é ainda mais travada: a empresa não pode operar até que uma eventual aprovação saia, e esses processos costumam ter ciclos longos de análise.
Faz a leitura fria. A Méliuz não saiu porque não conseguiria cumprir a regra — saiu porque, na conta dela, cumprir a regra por uma operação pequena não fazia sentido empresarial. Empresas menores, com operação de cripto mais relevante em relação ao tamanho, tendem a chegar à mesma conclusão por caminho oposto. E o movimento já está visível no varejo brasileiro: a Bity encerrou os serviços de cripto para terceiros no país, deixando 850 mil clientes com prazo para decidir o destino dos saldos, e a Crypto.com fechou a conta em reais no Brasil com o prazo do Banco Central se aproximando. Ou seja: o que este mês está entregando não é preço, é fila de decisões — e o resultado dela é uma lista de plataformas brasileiras que continuam autorizadas a operar, e outra que simplesmente vai desaparecer.
O que checar no seu aplicativo antes de 30 de outubro
- Descubra quem custodia o seu bitcoin. Se o app não é uma corretora e apenas “plugar” um parceiro, é provável que essa função seja exatamente o tipo de serviço que sai do ar nesta transição. A Méliuz é o exemplo mais recente, não o único.
- Confirme a situação da empresa no Banco Central. O que importa é se ela está autorizada ou com o pedido protocolado. Sem uma das duas, a instituição fica impedida de manter relacionamento operacional — e o seu saque pode ficar sem trilho.
- Não deixe saldo parado onde você não escolheu guardar. Liquidação automática a preço de mercado significa que a data da venda é decidida pela empresa. Em um mercado que caiu abaixo dos US$ 81 mil em 8 de outubro, esse detalhe deixa de ser burocrático e passa a ser financeiro.
- Se for sacar, não deixe para o dia 30. O Pix funciona 24 horas, todos os dias, feriado incluso, e liquida em segundos — mas limite por horário, fila de atendimento e prazo interno de processamento de cada plataforma continuam existindo. Quem resolve na véspera disputa a fila com todo mundo que teve a mesma ideia.
- Autocustódia é a única posição que não depende de autorização de ninguém. Se você guarda cripto para o longo prazo e não vai negociar, tirar do app e levar para uma carteira própria resolve o problema na raiz. Em troca, passa a ser sua a responsabilidade pela frase de recuperação — quem perde a seed perde o saldo, e nenhum Banco Central devolve.
O pano de fundo: o bitcoin caiu, o dólar ficou em R$ 5 e a conta mudou duas vezes
O preço também entrou na história desta semana. O bitcoin caiu abaixo de US$ 81 mil em 8 de outubro, com mínima intradiária perto de US$ 80,8 mil, e o mercado registrou mais de US$ 1 bilhão em liquidações em 24 horas, sendo cerca de US$ 930 milhões em posições compradas — o que amplifica a queda porque vende à força quem estava alavancado. No exterior, o rendimento do Treasury de 10 anos bateu 5,305% e o Brent chegou a US$ 104,87, combinação que reduz o apetite por risco; relatório da Glassnode de 7 de outubro estimou o volume diário combinado de exchanges spot e ETFs americanos em cerca de US$ 6,8 bilhões, abaixo de aproximadamente 90% das leituras desde janeiro de 2024, com US$ 4,9 bilhões de dinheiro novo (ETFs, stablecoins e tesourarias corporativas) contra cerca de US$ 12,8 bilhões realizados em 30 dias — leitura de que a alta anterior veio mais de reprecificação de moedas já existentes do que de entrada nova de capital.
No Brasil, o dólar fechou 8 de outubro a R$ 5,024. Faça a conta na tela: a US$ 81 mil, cada bitcoin vale aproximadamente R$ 407 mil — e a faixa de US$ 75 mil apontada como o próximo agrupamento de liquidações equivale a cerca de R$ 376,8 mil. Para o investidor que compra em real, taxa de câmbio mais baixa é a mesma coisa que desconto: cai o preço em dólar e cai o preço em real na mesma semana. O que não muda no calendário são os gatilhos à frente — o CPI de setembro em 14 de outubro, o FOMC de 27 e 28 de outubro e o encontro do Fed de 8 e 9 de dezembro. Na leitura técnica, a referência que devolveria força ao movimento é US$ 85,5 mil, perto de R$ 429,5 mil.
Conclusão: marque 30 de outubro no calendário
O que aconteceu com a Méliuz é menos sobre uma empresa e mais sobre um modelo que está mudando de forma: no Brasil, cripto deixou de ser funcionalidade de conveniência dentro de qualquer app e passou a ser atividade regulada, com capital, segregação de ativos, controle interno e auditoria. Quem operava no improviso vai sair, quem tem estrutura vai ficar — e a cabeça de cada brasileiro que guarda bitcoin num app de varejo deveria estar na tela do Banco Central, não no aplicativo. A checagem é curta: onde está o meu saldo, essa empresa está na lista autorizada, e o que eu faço se ela não estiver.
Fazer isso hoje custa alguns minutos. Fazer isso no dia 30 custa o preço que o mercado decidir por você.
Leia também
- O precedente que correu na frente: A Bity saiu do varejo no Brasil e 850 mil clientes têm até 25 de novembro.
- O que a nova regra do Banco Central mudou nas stablecoins e nas remessas em A Resolução BCB 561 entra em vigor.
- O arcabouço que sustenta tudo isso está em O marco legal das criptomoedas, Lei 14.478.
- E o cenário de preço da semana, com o dólar abaixo de R$ 5 e as liquidações, em Bitcoin devolve o ganho de outubro.
🚀 Pronto para começar?
A melhor exchange para brasileiros 👋 Use o código HERMESS ao se cadastrar na Binance e dê seu primeiro passo no mundo cripto!
⚠️ Este conteúdo é apenas informativo e não constitui recomendação de investimento. Investir em criptomoedas envolve riscos. Faça sua própria pesquisa (DYOR).
🔥 Trade na Bybit Também
Bybit é uma das top-3 exchanges globais. Cadastre-se com o código 7LMZ0G e ganhe desconto nas taxas!
Cadastrar na Bybit →⚠️ Investir em criptomoedas envolve riscos. Faça sua própria pesquisa (DYOR).
